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Escolha da profissão não é um caminho sem volta
A escolha da profissão é considerada uma das decisões mais importantes que tomamos na vida, pois dá contorno e grande significado na constituição de nossa identidade social. Importante, no entanto, não significa definitiva ou terminal. Muitos a encaram como uma escolha sem volta, mas será mesmo? Trata-se, sem sombra de dúvida, de uma das primeiras decisões de peso em nosso projeto de vida e, em função disso, é comum que gere dúvidas e ansiedade. Porém, tendo-se optado por um determinado rumo profissional, não se deve encará-lo como quem acaba de selar seu destino. Na Era do Conhecimento, estamos vivendo mudanças em uma velocidade nunca vista, o que tem impactado nas profissões, segmentando-as, fundindo-as com outras. Há também o surgimento de novos nichos de mercado e novas especializações ou até mesmo novas profissões para atender públicos cada vez mais específicos, mercados cada vez mais mutantes. Estes movimentos também se refletem ou influenciam a trajetória profissional que escolhemos.
Com este grande movimento de mudança, de aumento da complexidade do trabalho, da competitividade no mercado, a pressão que nós mesmos nos impingimos em relação à nossa colocação no mercado de trabalho faz com que por vezes priorizemos as variáveis externas da escolha profissional, sem um diálogo mais íntimo com o nosso mundo interno (desejos, necessidades, interesses e valores). Segundo levantamento recente realizado pela Universidade de São Paulo (USP), apesar de termos muita informação ao nosso redor, observa-se ainda a falta de percepção sobre o que há de real e de fantasioso em cada profissão, fato que tem levado 44,5% dos jovens a abandonar o que, teoricamente, era seu sonho de realização profissional. A pesquisa constatou ainda que praticamente metade dos estudantes que interrompem ou desistem da graduação tiveram problemas no momento da escolha.
Fica a questão: Como nossos jovens têm feito esta escolha? Como têm se preparado para este momento? Quais são os critérios que têm priorizado? Que tipo de suporte têm recebido para esta tomada de decisão?
Atualmente, recebemos mais informação no jornal de domingo do que um homem médio do século XV recebia em toda sua vida. E isso é ruim? Muito pelo contrário. A informação é “alimento” para a decisão, para o julgamento e para a ponderação. É com ela que aprendemos e podemos questionar, levantar novas hipóteses e possibilidades, diminuindo conseqüentemente a margem de erro e aumentando os acertos. O grande desafio é encontrar a informação relevante e refletir sobre ela, para que passe a ter um significado. Nesse momento da passagem do Ensino Médio para o mundo adulto, vários atores sociais podem auxiliar os jovens nesse processo de exploração e de escolha, e a instituição escola, como o agente mais próximo dele, bem como sua família têm um papel preponderante.
No entanto, a orientação profissional ainda não conseguiu adquirir um espaço formalizado dentro das escolas, e ainda não é vista como prioridade pela maioria dos estabelecimentos de ensino. Muitas escolas costumam aplicar simulados para os alunos, algumas delas os utilizam como forma de avaliação, outras apenas como treino. Mas, por que se valorizar exclusivamente o vestibular, que funciona como a ponte, ou meio, em detrimento da profissão, que é o fim? É como se ter espaços para tratar de assuntos como profissão, carreira, sonhos e mercado de trabalho roubasse espaço de outras áreas do saber. Mas quem, se não a escola, está mais apta a oferecer subsídios para que a informação possa ser contextualizada, refletida e assimilada? Por que não favorecer o treino para a escolha da profissão dentro da grade curricular, ou incluí-lo de forma vertical nos planejamentos de ensino?
Muitos jovens acabam se frustrando depois que entram na faculdade, pois partem de uma impressão errada do que vão fazer. Cursos ligados à área de comunicação e lazer, como Publicidade e Turismo, costumam criar uma visão fantasiosa e glamourosa para o vestibulando. É preciso que o jovem saiba identificar o que é realidade e o que é fantasia. Um curso ou uma experiência processual de orientação profissional preencheria esta lacuna, colocando o jovem em contato em primeiro lugar consigo mesmo e depois com publicações sobre profissões, mercado, tendências dos cenários, possibilidades de formação e com a realidade laboral de forma concreta e vivencial, por meio de conversas com estudantes e profissionais da área, realizando visitas a faculdades e a empresas.
O fato é que existem formas de diminuir a margem de erro na escolha da profissão, e as experiências e pesquisas provam que a mais importante é o auto-conhecimento, que consiste em saber discernir quais são suas reais vocações e predileções, sua visão de futuro, e a partir daí estabelecer metas pessoais, ter diálogo permanente com a realidade exterior no sentido de se fazer um plano de ação, negociando expectativas pessoais e externas, encontrando caminhos para a escolha da profissão e para a construção das trajetórias de carreira, que não serão mais lineares e ascendentes e sim em formato de uma serpente, flexíveis e mutantes.
É importante que se perceba que as fronteiras das profissões estão se tornando cada vez mais fluídas, e é imprescindível ter em mente que uma mesma formação pode abrir portas para muitas outras. Enfim, a não ser pela premissa de que temos que acompanhar as voltas que o mundo dá, nada mais nesta vida pode ser visto como permanente e definitivo.
Fátima Trindade
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