EDUCAÇÃO - Magistério: um retrato preocupante .

Uma classe mal remunerada, pouco valorizada socialmente, com formação deficiente e majoritariamente feminina. Esse é o diagnóstico do professorado brasileiro ilustrado na pesquisa "Professores do Brasil: impasses e desafios", divulgada no último dia 5, pela Unesco. Realizado em parceria com a Fundação Carlos Chagas pelas professoras Bernardete Gatti e Elba Barretto, o estudo se baseou em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2006, para traçar o perfil do magistério brasileiro. Alguns dados do estudo causam surpresa. Metade dos 2.803.761 trabalhadores que compõem a categoria ganha menos de R$720. Na Região Nordeste, a realidade é ainda pior: metade do professorado recebe menos de R$450. Além disso, a média salarial no ensino médio é de R$1.300 na rede pública e de R$1.000 na privada. Se comparada à remuneração média paga a outras categorias, como advogados ou farmacêuticos, por exemplo, para as quais é exigido o mesmo tempo de estudo de um licenciado, a média salarial dos professores é quase um terço da recebida por estes profissionais. A de um advogado, por exemplo, é de R$2.858, enquanto a do professor não passa de R$927.


A pesquisa da Unesco revela que o magistério se tornou uma carreira aonde predominam as mulheres (segundo a Pnad, 83,1%) e também os profissionais das classes mais populares do país. Dados coletados por meio do questionário do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), junto a estudantes de Pedagogia e de cursos de Licenciatura, como Letras, Matemática e Química, por exemplo, indicam que 39,2% dos futuros professores têm renda familiar de até três salários mínimos. Já aqueles com renda familiar de três a dez salários mínimos representam 50,4% do total dos estudantes de formação de professores. Outra constatação da pesquisa é que os professores do país estão despreparados. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) preconiza a formação superior, exigida da educação infantil ao ensino médio. Contudo, os profissionais que estão nas salas de aula têm, em média, 14 anos de estudo, enquanto o tempo necessário para concluir os níveis fundamental, médio e superior é de, pelo menos, 15 anos. Os professores do ensino médio têm, aproximadamente, 16 anos de estudo e, na educação infantil, a média é de 13 anos. O MEC estima que 600 mil professores no Brasil não têm a formação adequada.


Professores ainda são "invisíveis" para sociedade - Coordenadora da pesquisa, a professora Bernardete Gatti explica que o objetivo é fornecer orientações para a elaboração de políticas públicas para o magistério. "O estudo nasceu da ideia de desenvolver uma proposta de valorização do professor. Para isso, precisamos conhecer quem são os docentes e saber mais sobre a formação, salário e carreira", explica a pesquisadora. Professora da Fundação Carlos Chagas, Bernardete Gatti assinala que o magistério é a terceira maior categoria do país. No entanto, esses profissionais não têm "visibilidade" na sociedade. "Eles representam o dobro de profissionais empregados na Construção Civil, por exemplo. Se há tantos trabalhadores de educação é porque eles são importantes para o país. Porém, eles são invisíveis no volume de sua contribuição e estão submetidos a uma formação precária."


Na avaliação da pesquisadora, as instituições de formação de professores não cuidam dos futuros docentes como deveriam. "Encontramos muitos problemas nos currículos dos cursos de Pedagogia, de Matemática, de Língua Portuguesa, de Biologia e outras licenciaturas. Eles não recebem formação suficiente para enfrentar os desafios da sala de aula e da escola", explica a professora. Outro fator agravante é que, além de receberam baixos salários, não há perspectivas de carreira. "A diferença entre o salário inicial e o final é muito pequena. A carreira não se torna atraente", completa a pesquisadora. O fato de a média salarial na rede privada ser menor do que na pública surpreendeu a pesquisadora. "A rede privada tem grandes colégios, mas a maioria são pequenos estabelecimentos de ensino, que pagam mal. Por isso, hoje em dia, os professores vêm de camadas sociais menos favorecidas e vêem, no magistério, uma possibilidade de ascensão social. Se aumentar o investimento em educação, o Brasil terá a oportunidade de estimular esses professores, que têm um potencial muito grande a ser desenvolvido", acrescenta a coordenadora da pesquisa.

O sonho de uma remuneração mais digna

Presidente da Associação Brasileira de Educação (ABE) e membro do Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro (CEE/RJ), João Pessoa de Albuquerque acredita que a principal forma de valorização do magistério está no seu salário. Por isso, o educador sugere novos paradigmas de remuneração para a categoria. "Vamos imaginar que o piso salarial do magistério fosse igual ao piso de um integrante do Ministério Público, entre R$ 18 mil e R$20 mil. A procura pelos vestibulares dos cursos de Pedagogia seria enorme. O professor é um dos profissionais de maior efeito multiplicador na sociedade. O arquiteto, o advogado, todos passaram por um professor para chegar aonde chegaram", observa.


Entretanto, o educador assinala que desvalorizar o magistério foi uma cultura que se construiu no país. "Nossos governantes não consideram a educação como prioridade. Esse foi um traço que se enraizou em nossa cultura. Se o governante brasileiro tivesse se conscientizado do real efeito multiplicador da educação, teria traduzido isso em elevação do padrão social do magistério", pondera o educador. Por isso, o presidente da ABE cobra mudanças de mentalidade dos governantes. "Tudo começa pela valorização salarial. Não adianta eu decantar predicados ao professor, se não o remunero bem. Ele é o profissional de maior efeito multiplicador de qualquer sociedade do mundo. O investimento que se faz em educação supera em rentabilidade qualquer outro investimento, como aqueles feitos na indústria ou no setor de comércio, por exemplo", finaliza o integrante do CEE/RJ. Um dado preocupante, de acordo com a pesquisa "Professores do Brasil: impasses e desafios" é o desequilíbrio entre a abundância de aulas expositivas e a escassez de aulas práticas em todos os cursos analisados. Segundo o estudo, na prática docente da escola básica, os professores tendem a reproduzir mais as suas experiências como estudantes do que as teorias com as quais entram em contato. Soma-se a esse aspecto, o fato de metade dos estudantes de Pedagogia provavelmente não passar por experiências de avaliação individual. Neste curso, predominam os trabalhos em grupo como forma de avaliação. E para 20,8% dos estudantes dos cursos de formação de professores, o magistério representa uma segunda opção, caso não consigam exercer outro tipo de atividade.


Professora da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Bertha do Valle reconhece que, atualmente, muitos alunos dos cursos de Pedagogia e Licenciaturas não pensam em ser professores. Muitas vezes, o objetivo é ter um curso superior para, posteriormente, prestar um concurso público. "O magistério é uma carreira para a qual sempre estão sendo realizados concursos. Então, eles têm a oportunidade de ingressar no serviço público. Contudo, na primeira oportunidade, muitos mudam de profissão. Existem concursos que pedem apenas formação superior, independente de sua carreira. Além dos baixos salários do magistério, as condições de trabalho são ruins e as escolas têm poucos recursos. Eles já sabem que vão se esforçar e que não vai compensar", assinala a professora.


Falta de base cultural influencia no desempenho - A constatação de que boa parte dos professores brasileiros vêem de famílias de baixo poder aquisitivo também é preocupante. Base cultural e maior contato com a arte são aspectos que potencializam a atuação do professor em sala. Até por isto, segundo Bertha do Valle, o fato de grande parte dos estudantes dos cursos de formação de professor ser proveniente de famílias com baixa escolarização e de baixa renda pode repercutir no processo ensino-aprendizagem. "Muitas vezes, o próprio espaço familiar dos estudantes é de pobreza cultural. Eles vêm de famílias que não têm o costume de ir a museus, ao teatro. Não tiveram oportunidade de entrar em contato com expressões artísticas. E, como grande parte dos estudantes trabalha e estuda, eles não têm tempo e nem dinheiro para ampliar seu repertório cultural. Se ele não estudou em uma escola aonde teve a oportunidade de enriquecer o seu currículo, isso terá consequências", analisa Bertha do Valle, que cobra mais investimentos. "É preciso melhorar a infra-estrutura das escolas, do salário dos professores e das condições de trabalho. Enquanto a educação não for prioridade, não vamos mudar esse quadro. Até na rede particular há problemas, já que os salários são ainda mais baixos. Por isso, todo o sistema estádeficiente", finaliza a educadora.

 

FONTE: Folha Dirigida, 12/10/2009 - Rio de Janeiro RJ



Todas as notícias

Calendário Acadêmico Manual do Aluno Código de Ética GOGEPA Clipping Educacional